Harry Potter: Hans Zimmer promete uma trilha bem diferente da de John Williams

Imagem / Divulgação / HBO / Warner Bros / Harry Potter

Existem trilhas sonoras que deixam de ser apenas trilhas sonoras. Elas passam a fazer parte da identidade de uma franquia.

No caso de Harry Potter, poucas coisas demonstram isso tão bem quanto “Hedwig’s Theme”. Basta ouvir aquelas primeiras notas para lembrar de Hogwarts, do Expresso, das corujas, das velas flutuando no Grande Salão e de toda uma fase da saga cinematográfica que marcou uma geração.

É justamente por isso que a nova série da HBO enfrenta um desafio particularmente complicado: como criar uma nova identidade musical para Harry Potter sem parecer uma cópia daquilo que John Williams fez nos filmes?

Hans Zimmer já tem uma resposta.

Em entrevista ao Collider, o compositor explicou que não pretende tentar escrever como Williams. Na verdade, disse que, mesmo que pudesse, procuraria se afastar o máximo possível do trabalho do colega para criar algo original.

Para quem gosta das trilhas dos filmes, a ideia pode parecer inicialmente arriscada. Para mim, porém, existe uma boa razão para encarar essa escolha com curiosidade.

Se a nova série realmente quer ser uma nova interpretação dos livros, talvez ela também precise encontrar uma nova maneira de soar.

Hans Zimmer não quer imitar John Williams

A declaração de Zimmer veio quando ele foi questionado justamente sobre a dificuldade de assumir uma franquia cuja identidade musical já está tão associada a outro compositor.

A resposta foi bastante direta: “Eu não consigo escrever como John Williams”. E, mesmo que conseguisse, Zimmer explicou que tentaria se afastar o máximo possível dessa linguagem para fazer algo original.

Não é a primeira vez que ele passa por uma situação parecida.

Quando trabalhou em O Homem de Aço, de 2013, Zimmer também precisou lidar com uma franquia que carregava uma associação musical fortíssima com Williams. O tema de Superman criado para os filmes de Richard Donner, afinal, havia se tornado tão reconhecível quanto o próprio personagem.

Zimmer contou que passou meses preocupado com a ideia de assumir aquela responsabilidade. Até que Zack Snyder lhe deu um conselho bastante simples: era apenas um filme, e ele deveria fazer a música que acreditava ser certa para aquela versão do personagem.

O resultado foi uma trilha que não tentou reproduzir o Superman de Williams. O Homem de Aço ganhou uma identidade musical própria, muito mais ligada ao tom que Snyder buscava para aquele universo.

Agora Zimmer está diante de um desafio semelhante, só que com uma diferença importante: Harry Potter possui uma relação ainda mais afetiva com sua música original para parte do público.

John Williams deixou uma marca gigantesca

Imagem / John Williams / Direitos pertencem aos seus detentores

É impossível discutir a música de Harry Potter sem passar por John Williams.

Williams compôs as trilhas dos três primeiros filmes — A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban — e criou vários dos temas que ajudaram a estabelecer a personalidade musical daquele universo.

Entre eles está “Hedwig’s Theme”, que se tornou praticamente uma assinatura da franquia.

O interessante é que o legado de Williams não ficou limitado aos filmes que ele próprio musicou. A identidade musical estabelecida no começo continuou presente nas produções seguintes, mesmo quando Patrick Doyle, Nicholas Hooper e Alexandre Desplat assumiram a composição.

Isso criou uma situação bastante incomum para a nova série.

Zimmer não está começando do zero. Ele está entrando em um universo cuja música já possui uma memória coletiva muito forte.

É diferente de receber uma franquia conhecida visualmente e simplesmente criar uma nova trilha. Em Harry Potter, algumas melodias já funcionam quase como atalhos emocionais: elas não apenas acompanham uma cena, mas imediatamente transportam o espectador para aquele mundo.

Por isso, tentar reproduzir Williams provavelmente seria uma armadilha.

Hans Zimmer pode dar uma identidade nova à série

Imagem / Hans Zimmer / Direitos pertencem aos seus detentores

É aqui que a escolha começa a ficar realmente interessante.

Eu gosto muito das trilhas de John Williams. Mas também gosto bastante do trabalho de Hans Zimmer, justamente porque os dois compositores têm maneiras muito diferentes de construir identidade musical.

Williams costuma trabalhar com melodias e temas extremamente reconhecíveis, capazes de assumir uma vida própria fora do filme. Zimmer, em diferentes projetos, construiu uma assinatura frequentemente mais concentrada em textura, atmosfera, ritmo, camadas sonoras e interação entre elementos eletrônicos e orquestrais.

Basta pensar em Interestelar, A Origem, Duna ou O Cavaleiro das Trevas. São trabalhos muito diferentes entre si, mas existe uma preocupação evidente com a maneira como o som participa da experiência física e emocional das cenas.

Não faria muito sentido colocar Zimmer diante de Harry Potter e pedir simplesmente “faça outro John Williams”.

Seria como contratar um diretor conhecido por sua própria linguagem e pedir que ele passasse o projeto inteiro tentando reproduzir o trabalho de outra pessoa.

A declaração de Zimmer sugere justamente o contrário: ele quer encontrar uma identidade musical própria para essa versão da história. E isso combina com a proposta da HBO de adaptar novamente os livros de J.K. Rowling para a televisão, em uma produção que terá muito mais tempo para desenvolver o material original.

A nova série precisa encontrar sua própria música

Imagem / Divulgação / Warner Bros / Harry Potter

A música não é um detalhe secundário nessa nova adaptação.

A HBO confirmou oficialmente que Hans Zimmer e a Bleeding Fingers Music serão responsáveis pela nova trilha, com Zimmer trabalhando ao lado dos compositores Kara Talve e Anže Rozman. O anúncio também deixou claro que a equipe reconhece o legado musical deixado pelos filmes anteriores e pretende honrar aquilo que veio antes.

Essa combinação de respeito e mudança é importante.

A nova série não precisa fingir que os filmes nunca existiram. Ao mesmo tempo, se tudo for construído para reproduzir exatamente a sensação dos filmes de 2001 a 2011, fica difícil entender qual é a identidade própria dessa nova adaptação.

E a própria estrutura da série abre espaço para isso.

A produção pretende adaptar os sete livros ao longo de uma série planejada para durar anos, permitindo que cada temporada se concentre em um volume. A primeira temporada será baseada em Harry Potter e a Pedra Filosofal e a estreia está prevista para o Natal de 2026.

Isso significa que Zimmer e sua equipe não precisam necessariamente criar uma música que apenas reproduza a nostalgia dos filmes. Eles podem desenvolver temas que cresçam junto com os personagens, mudem de significado e acompanhem a passagem de uma história infantil para uma narrativa progressivamente mais sombria.

É uma oportunidade musical enorme.

Será que vamos ouvir Hedwig’s Theme?

Essa provavelmente será uma das primeiras perguntas que os fãs farão quando a série finalmente começar.

Por enquanto, não há confirmação pública de como “Hedwig’s Theme” será utilizado na nova produção. O que Zimmer confirmou é a intenção de buscar uma abordagem original e distante da linguagem musical de Williams.

Isso deixa algumas possibilidades interessantes.

A série poderia criar um novo tema completamente diferente para representar o mundo bruxo. Poderia também fazer referências pontuais ao legado musical dos filmes, sem transformar essas referências no centro da nova trilha. Ou, ainda, encontrar alguma maneira de incorporar elementos reconhecíveis de Williams dentro de uma linguagem musical completamente nova.

A questão é que “diferente” não significa necessariamente “sem nenhuma conexão”.

Uma coisa é copiar uma trilha. Outra é reconhecer que aquela música faz parte da história audiovisual de Harry Potter e decidir conscientemente quando uma referência musical tem valor dramático.

Pense no que acontece quando uma obra utiliza uma melodia conhecida em um momento específico depois de passar muito tempo construindo sua própria identidade. O efeito pode ser justamente maior porque o público reconhece aquilo como algo familiar.

Se a série optar por esse caminho, “Hedwig’s Theme” poderia funcionar como memória, não como muleta.

Mas isso ainda é especulação.

Eu quero ouvir o que Hans Zimmer vai fazer

Vou admitir: estou muito curioso para ouvir essa trilha.

John Williams estabeleceu uma identidade musical tão forte para Harry Potter que qualquer tentativa de substituí-la naturalmente será comparada com os filmes. Isso é inevitável. A música faz parte da memória que muita gente tem de Hogwarts tanto quanto os cenários, os figurinos ou os próprios atores.

Justamente por isso, não quero que Hans Zimmer tente fazer um novo John Williams.

Quero ouvir Hans Zimmer fazendo Harry Potter.

Quero descobrir como a combinação entre Zimmer, Kara Talve, Anže Rozman e Bleeding Fingers vai interpretar musicalmente uma versão da história que pretende voltar aos livros e passar muito mais tempo dentro deles. A equipe já afirmou que pretende respeitar o legado anterior, mas também está falando em criar uma nova trilha.

E existe algo particularmente interessante nisso: daqui a alguns anos, podemos estar falando de duas identidades musicais diferentes para a mesma história.

Uma será inseparável dos filmes que acompanharam uma geração.

A outra poderá se tornar a assinatura sonora da série da HBO.

Harry Potter não precisa abandonar John Williams para encontrar uma nova música. Precisa apenas descobrir qual som pertence a essa nova versão de Hogwarts.